O fato é um só: toda mentira tem perna curta, mas nem por isso deixou de nascer de uma atitude altruísta. E olha que, no fundo no fundo, era realmente de caráter filantrópico. Pelo menos na visão desta que vos narra. Pois bem. Sem mais delongas, eu conto. E, dessa vez, só digo a verdade.
Estava então com nove anos. Idade em que se entende, sem compreender totalmente, mas, ainda assim, depreendi muito mais do que eu mesma poderia imaginar. Talvez não o correto, mas o da ocasião.
Tudo teve início com a chegada de uma visitante à escola em que eu estudava. Alta e extremamente formal, ela era diretora de uma instituição de caridade e apareceu por lá para falar conosco sobre a importância do ato de doar. Segundo disse a tal diretora, as pessoas que se empenham por causas em prol da caridade têm grandes chances de serem mais felizes na vida. A bem da verdade, não tenho certeza se foi isso que me motivou – ou então o puro desejo consumista de possuir a “coqueluche” da época, mas é certo que eu decidi me engajar de vez num propósito de marcante benevolência. O problema é que só mais tarde percebi que benignidade a seu próprio favor se chama, na verdade, pilantragem, ou egoísmo. Principalmente quando envolve um montante razoável de notas coloridas e moedas ruidosas.
Enfim, na semana seguinte à visita da moça da doação, lá fui eu com a família para o interior. Casa de avós, festa de tia, parentada reunida. Era o melhor ambiente para colocar em prática o meu plano, talvez nem um pouco infalível, mas deveras bem arquitetado. E assim, com a cara e a coragem que Deus e a genética me deram, fui explicar para cada familiar presente que eu estava recolhendo quantias aleatórias para ajudar uma causa beneficente. A todos eu dizia que o importante não era o muito oferecido, mas sim que fosse de bom coração.
Já com o saco cheio – e aqui me refiro ao de pano que eu havia usado para juntar o bem em forma de cash –, andava saltitante e feliz da vida, fazendo planos de quanto será que faltaria para conseguir completar o valor do brinquedo que eu tanto queria, e que tinha sido o motivo de todo o meu intento, quando minha mãe me puxou pelo braço. Fomos até um quarto e então ela me questionou o que é que eu estava aprontando. Sem saber o quê, nem como responder, gaguejei. Pronto. Tinha entregado a mim mesma, e escrito minha própria sentença: contar a verdade para a família toda. Fácil não foi; nunca o é. Mas, até que no fim das contas, tudo acabou relativamente bem. Todos restituídos, bronca pública, lição aprendida e história que ficou para contar. E tudo isso sem brinquedo, nem aquele, nem qualquer outro.
Estava então com nove anos. Idade em que se entende, sem compreender totalmente, mas, ainda assim, depreendi muito mais do que eu mesma poderia imaginar. Talvez não o correto, mas o da ocasião.
Tudo teve início com a chegada de uma visitante à escola em que eu estudava. Alta e extremamente formal, ela era diretora de uma instituição de caridade e apareceu por lá para falar conosco sobre a importância do ato de doar. Segundo disse a tal diretora, as pessoas que se empenham por causas em prol da caridade têm grandes chances de serem mais felizes na vida. A bem da verdade, não tenho certeza se foi isso que me motivou – ou então o puro desejo consumista de possuir a “coqueluche” da época, mas é certo que eu decidi me engajar de vez num propósito de marcante benevolência. O problema é que só mais tarde percebi que benignidade a seu próprio favor se chama, na verdade, pilantragem, ou egoísmo. Principalmente quando envolve um montante razoável de notas coloridas e moedas ruidosas.
Enfim, na semana seguinte à visita da moça da doação, lá fui eu com a família para o interior. Casa de avós, festa de tia, parentada reunida. Era o melhor ambiente para colocar em prática o meu plano, talvez nem um pouco infalível, mas deveras bem arquitetado. E assim, com a cara e a coragem que Deus e a genética me deram, fui explicar para cada familiar presente que eu estava recolhendo quantias aleatórias para ajudar uma causa beneficente. A todos eu dizia que o importante não era o muito oferecido, mas sim que fosse de bom coração.
Já com o saco cheio – e aqui me refiro ao de pano que eu havia usado para juntar o bem em forma de cash –, andava saltitante e feliz da vida, fazendo planos de quanto será que faltaria para conseguir completar o valor do brinquedo que eu tanto queria, e que tinha sido o motivo de todo o meu intento, quando minha mãe me puxou pelo braço. Fomos até um quarto e então ela me questionou o que é que eu estava aprontando. Sem saber o quê, nem como responder, gaguejei. Pronto. Tinha entregado a mim mesma, e escrito minha própria sentença: contar a verdade para a família toda. Fácil não foi; nunca o é. Mas, até que no fim das contas, tudo acabou relativamente bem. Todos restituídos, bronca pública, lição aprendida e história que ficou para contar. E tudo isso sem brinquedo, nem aquele, nem qualquer outro.

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