por narah_conti
Karina. Karrrrrrina. Karinnaaa. Kaaaaarina. Ká. K.
Por que quando criança cismamos em não achar o nosso nome bonito, ou achar que não combinamos com ele? Essa neurose foi resgatada em uma frase do perfil de Matheus Nachtergaele publicado na revista Bravo! [edição 118]. O ator disse que odiava ser chamado de Matheus na infância, e sempre questionava o pai: “Por que Matheus e não Rodrigo?”
Eu também questionava minha mãe, por que ela não tinha posto o meu nome de Cecília para eu ser chamada de Ciça, ou Micaela, Milena, até Karine eu achava melhor. O motivo da neurose era devido a eu achar que Karina não combinava como uma criança, e por nunca ter conhecido uma pessoa mais velha com esse nome. A única Karina que conhecia era eu. As novelas nunca usavam meu nome para ser o da mocinha, apesar da minha mãe jurar que isso já aconteceu.
É um nome assonoro, que compositores não colocam em suas músicas, que poetas não encontram belas rimas – a não ser a música besta da Xuxa: “A Karina tem cheiro de gasolina”. Você pode até rir, mas eu nunca achei nenhuma graça.
A situação só piorou quando mudamos. Em menos de dois dias na casa nova, comecei a ouvir meu nome com mais freqüência, geralmente em tom enérgico de reprovação. Pensei: “Nossa! Será que tem uma criança atentada na casa da vizinha, ou talvez revoltada com o nome? O que faz a mãe berrar tanto?! Será alguém para compartilhar tal karma comigo?”.
Porém, a criança não era muito bem como eu pensava, na real, não era nem tão criança. Quem respondia por Karina, na casa da frente, era uma cadela de cor mel com aproximadamente 13 anos. A vizinha quando descobriu que eu tinha o mesmo nome de sua cachorra ficou sem graça, e chegou a perguntar para a minha mãe se não queria que ela começasse a chamar a cachorra por outro nome. Afinal, disse ela: “Cães não ligam muito para isso, se eu começar chamar ela por Léssie, logo ela se a costuma e começa a atender”.
Aquilo me causou uma imensa neurose. Por que a cachorra pode mudar de nome e eu não? Nada mais justo do que eu mudar de nome, pois quando eu nasci ela já era chamada assim. Então, sugeri a minha mãe: “Mãe, já tenho a solução! A Karina pode continuar com esse nome. Agora, eu vou me chamar de Cecília, mas me chame de Ciça, por que acho mais legal! Ah! Mãe, a gente tem que avisar a professora para ela mudar meu nome na chamada” – disse sorrindo, e muito feliz pois não precisaria mais esperar até o número 25 para tudo, pois o C era a letra do começo, e nas filas eu ficaria na frente.
Mas minha felicidade durou pouco. Minha mãe e a vizinha riram, e me disseram que não era tão fácil como eu pensava. Não?! Não! Descobri, então, que para tal felicidade eu precisava completar dezoito anos e provar que meu nome me causava constrangimento. Bem, o constrangimento eu até podia tentar provar, afinal, Karina não é lá um nome muito legal de alguém ser chamado – note a fonética: Ka – ri – na. São praticamente seis sílabas tônicas. O fato era que eu conseguiria provar que me sentia constrangida em me chamar assim, agora o problema era eu esperar até os dezoito anos. Pra quem tinha seis, dezoito era a eternidade.
Hoje, tenho vinte e gosto muito mais do meu nome, às vezes, quando eu profiro em voz alta me causa estranheza, mas já não ligo de ser chamada por ele. A cadela Karina faleceu três anos depois – juro que não fiz nada! É verdade! E outra, descobri que no jornalismo a gente não precisa assinar como está na certidão de nascimento. Karina não é ruim para mim, mas “K.” é quase a perfeição. É o título de um poema do Drummond, é o personagem principal do livro “O Processo” do Kafka, é aquela letra clandestina do alfabeto brasileiro, que está presente somente nas palavras estrangeiras ou indígenas. Como diz Carlos D. é "A letra inapelável / que exprime tudo, e é nada". Quanta neurose!
Por que quando criança cismamos em não achar o nosso nome bonito, ou achar que não combinamos com ele? Essa neurose foi resgatada em uma frase do perfil de Matheus Nachtergaele publicado na revista Bravo! [edição 118]. O ator disse que odiava ser chamado de Matheus na infância, e sempre questionava o pai: “Por que Matheus e não Rodrigo?”
Eu também questionava minha mãe, por que ela não tinha posto o meu nome de Cecília para eu ser chamada de Ciça, ou Micaela, Milena, até Karine eu achava melhor. O motivo da neurose era devido a eu achar que Karina não combinava como uma criança, e por nunca ter conhecido uma pessoa mais velha com esse nome. A única Karina que conhecia era eu. As novelas nunca usavam meu nome para ser o da mocinha, apesar da minha mãe jurar que isso já aconteceu.
É um nome assonoro, que compositores não colocam em suas músicas, que poetas não encontram belas rimas – a não ser a música besta da Xuxa: “A Karina tem cheiro de gasolina”. Você pode até rir, mas eu nunca achei nenhuma graça.
A situação só piorou quando mudamos. Em menos de dois dias na casa nova, comecei a ouvir meu nome com mais freqüência, geralmente em tom enérgico de reprovação. Pensei: “Nossa! Será que tem uma criança atentada na casa da vizinha, ou talvez revoltada com o nome? O que faz a mãe berrar tanto?! Será alguém para compartilhar tal karma comigo?”.
Porém, a criança não era muito bem como eu pensava, na real, não era nem tão criança. Quem respondia por Karina, na casa da frente, era uma cadela de cor mel com aproximadamente 13 anos. A vizinha quando descobriu que eu tinha o mesmo nome de sua cachorra ficou sem graça, e chegou a perguntar para a minha mãe se não queria que ela começasse a chamar a cachorra por outro nome. Afinal, disse ela: “Cães não ligam muito para isso, se eu começar chamar ela por Léssie, logo ela se a costuma e começa a atender”.
Aquilo me causou uma imensa neurose. Por que a cachorra pode mudar de nome e eu não? Nada mais justo do que eu mudar de nome, pois quando eu nasci ela já era chamada assim. Então, sugeri a minha mãe: “Mãe, já tenho a solução! A Karina pode continuar com esse nome. Agora, eu vou me chamar de Cecília, mas me chame de Ciça, por que acho mais legal! Ah! Mãe, a gente tem que avisar a professora para ela mudar meu nome na chamada” – disse sorrindo, e muito feliz pois não precisaria mais esperar até o número 25 para tudo, pois o C era a letra do começo, e nas filas eu ficaria na frente.
Mas minha felicidade durou pouco. Minha mãe e a vizinha riram, e me disseram que não era tão fácil como eu pensava. Não?! Não! Descobri, então, que para tal felicidade eu precisava completar dezoito anos e provar que meu nome me causava constrangimento. Bem, o constrangimento eu até podia tentar provar, afinal, Karina não é lá um nome muito legal de alguém ser chamado – note a fonética: Ka – ri – na. São praticamente seis sílabas tônicas. O fato era que eu conseguiria provar que me sentia constrangida em me chamar assim, agora o problema era eu esperar até os dezoito anos. Pra quem tinha seis, dezoito era a eternidade.
Hoje, tenho vinte e gosto muito mais do meu nome, às vezes, quando eu profiro em voz alta me causa estranheza, mas já não ligo de ser chamada por ele. A cadela Karina faleceu três anos depois – juro que não fiz nada! É verdade! E outra, descobri que no jornalismo a gente não precisa assinar como está na certidão de nascimento. Karina não é ruim para mim, mas “K.” é quase a perfeição. É o título de um poema do Drummond, é o personagem principal do livro “O Processo” do Kafka, é aquela letra clandestina do alfabeto brasileiro, que está presente somente nas palavras estrangeiras ou indígenas. Como diz Carlos D. é "A letra inapelável / que exprime tudo, e é nada". Quanta neurose!
