segunda-feira, 18 de junho de 2007

a.neurose.do.nome.que.seus.pais.te.batizam.

por narah_conti
Karina. Karrrrrrina. Karinnaaa. Kaaaaarina. Ká. K.
Por que quando criança cismamos em não achar o nosso nome bonito, ou achar que não combinamos com ele? Essa neurose foi resgatada em uma frase do perfil de Matheus Nachtergaele publicado na revista Bravo! [edição 118]. O ator disse que odiava ser chamado de Matheus na infância, e sempre questionava o pai: “Por que Matheus e não Rodrigo?”
Eu também questionava minha mãe, por que ela não tinha posto o meu nome de Cecília para eu ser chamada de Ciça, ou Micaela, Milena, até Karine eu achava melhor. O motivo da neurose era devido a eu achar que Karina não combinava como uma criança, e por nunca ter conhecido uma pessoa mais velha com esse nome. A única Karina que conhecia era eu. As novelas nunca usavam meu nome para ser o da mocinha, apesar da minha mãe jurar que isso já aconteceu.
É um nome assonoro, que compositores não colocam em suas músicas, que poetas não encontram belas rimas – a não ser a música besta da Xuxa: “A Karina tem cheiro de gasolina”. Você pode até rir, mas eu nunca achei nenhuma graça.
A situação só piorou quando mudamos. Em menos de dois dias na casa nova, comecei a ouvir meu nome com mais freqüência, geralmente em tom enérgico de reprovação. Pensei: “Nossa! Será que tem uma criança atentada na casa da vizinha, ou talvez revoltada com o nome? O que faz a mãe berrar tanto?! Será alguém para compartilhar tal karma comigo?”.
Porém, a criança não era muito bem como eu pensava, na real, não era nem tão criança. Quem respondia por Karina, na casa da frente, era uma cadela de cor mel com aproximadamente 13 anos. A vizinha quando descobriu que eu tinha o mesmo nome de sua cachorra ficou sem graça, e chegou a perguntar para a minha mãe se não queria que ela começasse a chamar a cachorra por outro nome. Afinal, disse ela: “Cães não ligam muito para isso, se eu começar chamar ela por Léssie, logo ela se a costuma e começa a atender”.
Aquilo me causou uma imensa neurose. Por que a cachorra pode mudar de nome e eu não? Nada mais justo do que eu mudar de nome, pois quando eu nasci ela já era chamada assim. Então, sugeri a minha mãe: “Mãe, já tenho a solução! A Karina pode continuar com esse nome. Agora, eu vou me chamar de Cecília, mas me chame de Ciça, por que acho mais legal! Ah! Mãe, a gente tem que avisar a professora para ela mudar meu nome na chamada” – disse sorrindo, e muito feliz pois não precisaria mais esperar até o número 25 para tudo, pois o C era a letra do começo, e nas filas eu ficaria na frente.
Mas minha felicidade durou pouco. Minha mãe e a vizinha riram, e me disseram que não era tão fácil como eu pensava. Não?! Não! Descobri, então, que para tal felicidade eu precisava completar dezoito anos e provar que meu nome me causava constrangimento. Bem, o constrangimento eu até podia tentar provar, afinal, Karina não é lá um nome muito legal de alguém ser chamado – note a fonética: Ka – ri – na. São praticamente seis sílabas tônicas. O fato era que eu conseguiria provar que me sentia constrangida em me chamar assim, agora o problema era eu esperar até os dezoito anos. Pra quem tinha seis, dezoito era a eternidade.
Hoje, tenho vinte e gosto muito mais do meu nome, às vezes, quando eu profiro em voz alta me causa estranheza, mas já não ligo de ser chamada por ele. A cadela Karina faleceu três anos depois – juro que não fiz nada! É verdade! E outra, descobri que no jornalismo a gente não precisa assinar como está na certidão de nascimento. Karina não é ruim para mim, mas “K.” é quase a perfeição. É o título de um poema do Drummond, é o personagem principal do livro “O Processo” do Kafka, é aquela letra clandestina do alfabeto brasileiro, que está presente somente nas palavras estrangeiras ou indígenas. Como diz Carlos D. é "A letra inapelável / que exprime tudo, e é nada". Quanta neurose!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Neurose do transporte coletivo

por narah_conti


A Espera

Parece até pirraça, mas sempre que você está esperando um ônibus ele nunca passa. Chegam a passar mais de cinco que você costuma pegar, só por que hoje não o quer. Não adianta, o destino desejado demora, demora...
Há uma teoria: se um fumante está esperando um ônibus, é só ele acender um cigarro para aliviar a espera que... PIMBA! O ônibus vem.
Posto isso, toda vez que eu - neurótica e contemporânea - estou aguardando um coletivo, torço para que, pelo menos, um fumante ansioso pelo mesmo destino que eu esteja no ponto e, lógico, acenda um cigarro.

Dois corpos OCUPAM o mesmo lugar

Depois de muito esperar, ele finalmente passa. Mas... quem diz que dá para entrar?
Exemplificando agora com outro coletivo, o trem.
Quando as portas se abrem é como o estouro de uma manada: as pessoas se empurram e conseguido entrar se apertam, pois quem ainda não embarcou defende a infeliz idéia: “sempre cabe mais um” – esses só se esquecem de que trem não é coração de mãe, e desafiam a lei da física fazendo dois corpos ocupar o mesmo lugar.
No meio desse empurra-empurra, apenas uma neurose se justifica: a vontade de sentar e completar o sono com os cochilos, que se alternam com os sustos de ter passado a estação.
Bem, se você foi premiado e conseguiu sentar não pense que a neurose acabou. Pode sempre aparecer aquele senhor da terceira idade, que poderia estar em casa dormindo aquelas horinhas a mais que você almeja tanto, fazendo-o levantar e ceder o lugar por causa da maldita cidadania que sua consciência não permite ignorar. Se fosse só os idosos talvez a probabilidade de cometer esse ato cidadão fosse menor, mas ainda há: gestantes, mães com criança no colo, deficientes e acidentados. Todos que decidiram justamente tomar o mesmo coletivo que você e no mesmo horário.

Até a lata de sardinha tem mais espaço

Como o privilégio de se sentar é para poucos, o restante se amontoa e se segura como pode. É até uma bênção conseguir pôr os dois pés no chão sem que um não sirva de solo para o de outrem, ou seja, sem que você precise exclamar: “O debaixo é meu!”.
O aperto também é a situação favorita daqueles que só vêem mulher de perto em momentos como esse. Os olhinhos destes pobres homens sem qualquer atributo de beleza chegam a brilhar, causando total desconforto para o sexo feminino. Mas o sexo masculino também sofre, porque... enfim... há quem, na falta de um XX, não resiste a um XY.
Tá, ok! Nós mulheres também nos aproveitamos, às vezes, da situação. Mas é devido à dificuldade de resistir àquele popozinho arrebitado escondido pelo blazer dos estagiários que teimam em usar terno com all star.

Blá-blá-blá...

Se você não tem um bom fone de ouvido, prepare-se para ouvir a neurose de muitos: filhos que fugiram de casa, a filha da vizinha que está grávida, intrigas com o chefe [que está sempre errado], mulher que fugiu com o vizinho, o menino com cara de bom moço da rua de cima que foi morto – “Nossa! Era um bom filho e morreu tão jovem”, “Também, foi se meter com quem não prestava”.
Há algumas conversas silenciosas, que a curiosidade faz dar aquela espiadinha para saber o que o outro está lendo. Geralmente, é o best seller do momento, o último livro do Paulo Coelho, algum romance espírita, ou revistas de fofoca e caderno de esportes.
Não podemos nos esquecer daqueles que não conversam com o outro passageiro e nem estão lendo. Eles estão teoricamente em silêncio, mas são tão sociais que querem compartilhar com todos os sons armazenados no mp3 ou no seu celular super-moderno. E você acaba sempre ouvindo, com dizem os Titãs: “A melhor banda de todos os tempos da última semana/O melhor disco brasileiro de música americana/O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado/O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos”.
Em momentos de muita neurose, o blá-blá-blá, o barulho emitido por esses aparelhinhos de música, mais o comercial dos ambulantes podem fazer florescer o Kiko que existe dentro de você, fazendo-o soltar: “Cale-se, cale-se! Vocês me deixam LOUCO!!!”

Conclusão Neurótica Social

É um absurdo pagar a tarifa de R$ 2,30 para andar em veículos sucateados (os bancos estão soltos e há mais crateras no assoalho do que na superfície da lua), esperar por horas, e quando finalmente passa... não dá para entrar por que pessoas estão sendo expelidas pela janela!
Realmente, essa situação causa uma super-neurose e necessita de algum plano mais neurótico para ser resolvida. Mas quem vai dar o primeiro passo? Já sabemos que greves só tornam o caos mais caótico.
Se você, ser-neurótico-contemporâneo que acabou de ler esse post, tiver alguma idéia de como, pelo menos, aliviar essa neurose contemporânea, POR FAVOR!, não se cale e nos envie a possível solução! Os usuários do transporte coletivo agradecem.